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Distância.Com.Amor

Especialmente sorrindo,

por Patrícia, em 08.10.15

  Há dias que nos sentimos pequenos por maiores que sejam os nossos gestos. Existem pessoas que nos deixam marcas eternas, por simples palavras, acções ou gestos. Há dias memoráveis e experiências inesquecíveis. Estou no último curso de Higiene Oral. Mas engane-se quem pensa que ser finalista é ter o máximo conhecimento de tudo, pois tudo aquilo que sei é que tenho muito mais a aprender.

  Dias bons e maus surgirão, novas histórias e etapas serão alcançadas, bem como derrotas e momentos de fraqueza. Mas existem dias bons que compensam todos os maus e hoje vi-me na necessidade de o transmitir. Na minha actividade clínica já tive vários tipos de pacientes. Os assustados, os faladores, os ansiosos, os esperançosos, os nossos melhores amigos e os nossos piores inimigos. No entanto, faltava-me um grupo peculiar: o das pessoas com necessidades especiais. Com o conhecimento teórico que tinha, tentei convencer-me que tudo iria correr bem, tanto para mim como para a minha dupla, que não existiriam falhas nem insucessos. A maior falha foi pensar, porque a partir do momento em que se deixa a razão de lado e se olha ao paciente, ao sentimento de dedicação ao nosso trabalho, à confiança e esperança que depositam em nós, tudo se torna mais fácil.

   Não existe nenhuma boca perfeita, senão também não existiria a minha futura profissão. Mas existem pessoas, seres iguais a tantos outros, que precisam de nós. E essa necessidade que mefoi transmitida, fez-me acreditar que existe futuro quando alguém o crê e ambiciona. Somos pequenos guerreiros, todos os dias, quando vestimos a túnica verde e as calças brancas, quando sorrimos quando temos medo do que nos espera, quando queremos ajudar quando nos pedem. E essas pessoas com necessidades especiais, vulgarmente denominadas de deficientes, pedem-nos auxílio para cuidar da sua boca, mas naquela hora e meia, auxiliamos o coração, tanto o deles como o nosso. Temos marcas de guerra. Choros e gritos, apertos e suores frios, mas também temos amor e carinho para oferecer. Temos tanto e somos tão pouco. Sentimo-nos inúteis por melhores que sejam as nossas intenções, queremos fazer tanto e por vezes não podemos. Mas naquilo que conseguimos ajudamos, sem discriminação. Somos todos iguais, sem filtros ou maquilhagem, temos os mesmos direitos e ninguém merece ser discriminado por qualquer que seja o motivo. Discriminação não são só palavras desagradáveis ou agressões, por vezes, somente o olhar de repulsa ou o evitamento do olhar é um sinal. Todos nós já o fizemos, até eu, mas temos que mudar mentalidades com pequenos passos.

   Hoje despi a minha roupa e dei a minha pele. Assim o farei, todos os dias, seja qual for o tipo de paciente. Acreditem ou não, às vezes é mais complicado um paciente mal-humorado que uma pessoa com necessidades especiais. São tão guerreiros, tão autênticos, mostram tão pouco do quão grandes podem ser. E nós, os ditos "normais", somos aqueles que nos deixamos levar por aparências.  O trilho a percorrer é longo, mas o importante é não desistir. Se eles não desistem do que têm e do que são, retribuir-lhes-ei com o meu maior profissionalismo e dedicação.

   Um aplauso para todos eles que se aceitam, apesar de todas as dificuldades que lhes são impostas, a todos os pais e familiares, a todos os cuidadores e auxiliares, a todas as instituições, a todas as pessoas que não se deixam levar por estereótipos.

  Para terminar, no fim do dia de hoje, eu e a minha colega recebemos um "obrigada" de uma senhora que raramente falou durante a consulta devido às suas dificuldades. Nós é que agradecemos, de coração. Somos pequenos heróis porque vos temos, sem vocês nada disto seria possível.

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